PARABÉNS A GALOPIM DE CARVALHO


Numa cerimónia realizada esta tarde no Pavilhão do Conhecimento foi entregue o Grande Prémio Ciência Viva Montepio ao Professor Galopim de Carvalho. Trata-se naturalmente de uma merecida distinção a quem tem pugnado pela divulgação do conhecimento científico, nomeadamente na área da Geologia em que é doutorado e sempre na defesa dos valores culturais e do nosso património. Professor, investigador, divulgador infatigável, a ele se deve o grande entusiasmo que entre nós se tornou tudo o que dissesse respeito aos dinossauros. Se hoje as crianças brincam com pequenos modelos de dinossauros - e disso tenho a experiência do meu neto que ainda muito pequeno era o melhor que lhe podíamos dar – tal facto é devido à sua luta pela preservação de pegadas desses gigantes do passado em Carenque e nas falésias do Cabo Espichel. Recordemos também que já como Director do nosso Museu de História Natural conseguiu que ali tivesse lugar a famosa exposição "Dinossáurios regressam a Lisboa", que contou com várias centenas de milhares de visitantes em menos de 3 meses.
Mas o meu grande amigo Galopim de Carvalho publicou inúmeros trabalhos e artigos científicos em prestigiadas revistas nacionais e internacionais e é autor de vários livros de divulgação científica, incluindo o primeiro e único Dicionário de Geologia, mas igualmente na área da literatura de ficção, demonstrando um carinho especial pelos valores da cultura popular. Não é por acaso que se trata de um alentejano que muitas vezes recorda a sua infância na grande planície, entre as gentes e os costumes tão particulares daquelas paragens. Diríamos que se trata com efeito de uma figura muito especial na cultura e na ciência portuguesas, a quem muito devemos pela sua intervenção corajosa e patriótica. Recordo importantes conferências no Museu de História Natural e noutros auditorios onde foi convidado para nos transmitir conhecimento, sabendo criar em todo o público uma empatia muito especial quer pelo tema dos Dinossauros, quer pelos fenómenos geológicos ou pela beleza dos minerais e cristais. Ficávamos todos com um desejo enorme de saber mais e mais e de aprender. E esse é o seu grande segredo: fazer despertar em nós o interesse pelas maravilhas que se podem encontrar naquilo a que vulgarmente chamamos apenas "pedras". São muito mais do que isso. Debaixo dos nossos pés algumas delas são verdadeiras pérolas. E isso aprendemos com ele. Adorado pela pequenada quando visita as escolas, admirado pelos colegas universitários, reconhecido o seu valor pelos muitos amigos com os quais partilha tudo o que sabe, bem merecia este prémio com que acaba de ser distinguido. E daí os nossos Parabéns.

O NOSSO JARDIM RENOVADO


Exactamente. O nosso Jardim. O Jardim Botânico de Lisboa. O projecto de renovação do Jardim Botânico, orçado em 500 mil euros, foi o grande vencedor do Orçamento Participativo de Lisboa, com 7553 votos. Dizemos nosso porque é de todos, sobretudo dos lisboetas. Mas nosso também, para todos aqueles que, como eu, frequentaram a antiga Faculdade de Ciências na Rua da Escola Politécnica, porque o Jardim Botânico onde se situava esse estabelecimento de ensino universitário, o edifício que agora é o Museu Nacional de História Natural e da Ciência era o nosso jardim. O jardim onde estudávamos, onde nos reuníamos em grupos para deliberar assuntos relativos à Associação dos Estudantes, também ela integrada naquele espaço arborizado e onde também se namoriscava,
eventualmente onde principiaram futuros casamentos (pelo menos um deles que conheço bem). Esta curiosa particularidade foi bem frisada nas palavras que o Professor Fernando Catarino proferiu (oiçam o que diz no video em baixo) no passado dia 19 de Outubro quando ali se realizou um evento chamado A Corda pelo Botânico que haveria de reunir centenas de pessoas que deram o laço a duas cordas que então se estendiam, uma desde a Praça da Alegria e outra partindo do Jardim do Príncipe Real. Significava esse laço um “nó simbólico”para completar um longo cordão que ligava os três espaços verdes da nossa cidade, desde o velho portão de entrada do Jardim na parte baixa da cidade até à entrada pela alameda das palmeiras na Politécnica, para que fosse aprovado pela Câmara Municipal, através do seu Orçamento Participativo para 2013, o projecto para a renovação do Jardim Botânico. O Professor Fernando Catarino, professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foi sempre um dos grandes lutadores por essa causa e ali esteve presente juntamente com muitas figuras públicas. Como antigo director do Jardim Botânico, a ele se devem as ligações nacionais e internacionais que o Jardim como espaço de investigação possui, o aumento das colecções de herbário e a constituição de um banco de sementes, moderno e actual como está hoje. Mas nos ultimos anos e apesar da sua luta e de muitos dos seus companheiros, actuais responsáveis do Museu Nacional de História Natural e Ciência, o nosso Jardim viveu momentos difíceis com dificuldades enormes para a preservação do seu património natural conseguido ao longo da sua vasta história. Esta recente vitória alcançada por uma intervenção corajosa que reuniu a vontade de muitos dos amantes da natureza e do ambiente citadino vai marcar certamente uma nova etapa na vida do nosso jardim. A todos os que por ele lutaram e ao Professor Catarino, neste dia particular para ele, aqui deixamos os nossos parabéns pelo duplo acontecimento. Oiçamos as suas palavras no decorrer do pequeno vídeo da reportagem da SIC no evento que marcou a esperança na vitória agora alcançada.

*** RECORDAR HOJE HIROSHIMA ***** ** 6 de AGOSTO *******


Recordar Hiroxima, hoje 6 de Agosto, não é só recordar o maior massacre da história do homem provocado pelo próprio homem. Nessa manhã de 1945, 140.000 mortos e uma cidade totalmente destruída, milhares de estropiados, crianças que não chegaram a nascer e outras que muitos anos depois ainda continuavam a nascer com deformidades provocadas por alterações genéticas, Hiroxima terá sido – foi certamente – a vergonha de muitos homens, pelo menos de alguns. O piloto do avião que transportou e lançou sobre a cidade japonesa o terrível engenho nuclear foi internado num hospital psiquiátrico. Alguns cientistas ter-se-ão interrogado sobre a possível culpabilidade em milhares de mortos. Mas o que é incrível é que essa decisão tenha sido possível à mesa de uma qualquer reunião de militares – e não só – quando e nunca foi desmentido já se sabia de antemão que a guerra estaria perdida pelo inimigo, nesse caso o Japão e as suas duas cidades mártires. Apesar da cerimónia que hoje, como todos os anos desde a reconstrução da cidade, decorre na grande praça principal de Hiroxima para homenagear os seus mortos e recordar o terrível holocausto, a geração actual não terá sempre presente o que de facto aconteceu. Recordar hoje Hiroxima é portanto uma forma de manter bem vivo o clamor que não deixará de existir sempre que o homem se esquecer de respeitar os seus iguais, destruindo as suas perspectivas de um futuro. Não se trata apenas de lutar para que não aconteçam mais Hiroshimas. Nunca mais. O perigo nuclear, apesar do desanuviamento entre as grandes potências, pode espreitar quando menos se espera, vindo de um qualquer país, desejoso de se impor perante a restante humanidade. E sabemos bem quais são os países que se recusam a ser inspeccionados pelos organismos internacionais de prevenção nessa área. Mas recordar Hiroshima é também uma forma de rejeitar os actuais genocídios de muitos milhares de vidas inocentes pois a guerra continua a existir em vários pontos nevrálgicos e a subsistir numa destruição permanente, como é o caso dos conflitos como o israelo-árabe e outros países do oriente de que são exemplo a Síria, o Egipto ou o Iraque. Tais genocídios poderão parecer menos brutais pelo menor número de vítimas mas são sempre genocídios. A morte de pessoas inocentes é sempre inqualificável, qualquer que seja o seu número. Nada a justifica. O homem é o único animal que mata os da sua própria espécie, apenas para os eliminar. O genocídio é um fenómeno contra-natura. Termino com uma frase que não sei bem se é minha mas que sempre tenho repetido com intensidade, sobretudo – mas não só – no decorrer desta data. “Recordar hoje Hiroshima é lutar por uma existência digna e feliz para todos os homens que um dia – se todos quisermos – viverão em paz e harmonia.”

COMO O VITOR RETRIBUI O QUE O PAÍS LHE DEU

A propósito de um novo blog Tu(r)bo d’Escape lançado na Net pelo amigo Rui Beja aproveito aqui para o felicitar pela sua força por conseguir juntar mais esse espaço que agora aparece na Net aos restantes que já tem e alimenta, para além de todo o seu trabalho sempre orientado pela defesa da cultura, dos livros e dos valores que o tempo presente tenta destruir. Vozes como a dele são cada vez mais necessárias. A situação que estamos a viver é simplesmente vergonhosa e uma afronta às conquistas que tinhamos obtido e que todos nos diziam defender. Mas, como se nota, diziam mas mentiram. Mentiram-nos e continuam a fazê-lo. É preciso reagir e é isso que o meu amigo está a fazer. Também tenho tentado mas não tendo a sua força e juventude, ainda não colocara neste meu blog “Portudo e Pornada” uma referência ao sujeito aqui visado. Mas acabei de o fazer com a sua ajuda. O Sr. Vitor numa das suas “obras parlamentares” na Assembleia, disse a certa altura que (e recordo) “estou a retribuir ao país aquilo que o país pagou pela minha educação. O país gastou muito dinheiro durante décadas na minha educação”. Apetecia-me dizer, como certamente todos os portugueses, que se tratou de um erro grave que o país fez. Dinheiro muito mal gasto para assim estarmos dependentes das asneiras que ele faz. Melhor seria tê-lo deixado pelo caminho, sem atingir o doutoramento. O que também talvez não ocasionásse grande diferença pois outro lá está que nem precisou de frequentar as cadeiras do curso que obteve e até chegou a tirar algumas que não existiam. De facto como muito bem diz o amigo Rui Beja, ele é “Incapaz de perceber o que leu nos livros sobre economia”. Não percebeu nesses nem em nenhum dos outros que eventualmente lhe tenham passado pelas mãos. E estou plenamente de acordo consigo: “ é preferível um fim com horror do que um horror sem fim”. Temos de reagir com força a este ataque que os nossos governantes estão fazendo à nossa vida e à dos nossos filhos e netos, a todos os que vão sofrer os desvarios destes lacaios da Sra. Merkl e do grande capital. Há muitas formas de luta. Só é necessário que nos unamos. E teremos essa força. Bem haja Rui Beja com aquela que no seu blog nos transmite e aconselho quem nos lê aqui que carregue no respectivo link que se segue Tu(r)bo d'Escape

VIDENTE DESMASCARADA ***** TVI FICA MAL NO RETRATO



Tal como em Abril de 2010 escreveramos num pequeno artigo que podem ler mais abaixo, a suposta Médium Anne Germain utilizava procedimentos muito graves, indignos da sua presença nos ecrãs da TVI onde fazia crer aos seus convidados que comunicava com os espíritos dos respectivos familiares já falecidos, transmitindo-lhes falsas mensagens por eles enviadas. Os convidados, acreditando no que ouviam, comoviam-se, choravam e, a única coisa a que se pode realmente dar algum valor é que saiam dali muito felizes por lhes ter sido dito que todos os seus falecidos se sentiam muito bem por “lá”. Pois Anne Germain acaba de ver descoberto o seu jogo. Um funcionário da TeleCinco onde ela fazia um programa idêntico ao apresentado na TVI, “ Mas Allá de la Vita”, revelou que ela tinha uma equipa de profissionais que preparavam dossiers sobre a vida particular de cada um dos seus convidados, incluindo os mais marcantes, e que portanto estava a par de tudo o que acontecera com os seus familiares. Mais ainda, no que dizia respeito às pessoas escolhidas, no final das entrevistas, entre as que assistiam ao programa em directo, recebia num auricular como identificá-las, tendo-lhe sido fornecidos anteriormente alguns dados sobre as pessoas às quais se iria dirigir. Um mais que perfeito embuste que de facto lhe rendia a módica quantia de 15 mil Euros por emissão. Só no último ano terá acumulado, juntamente com a sua autobiografia, cerca de 1 milhão de Euros. E ainda mais impressionante é o facto de ganhar dinheiro à custa das emoções, por vezes dolorosas, que causava nos seus entrevistados para cada programa.

Fica-nos a dúvida sobre até que ponto a TVI sabia como eram preparadas as emissões com as quais desejava prender a audiência das pessoas crentes. De qualquer forma, uma simples pesquisa na Internet em Abril de 2010 bastaria para encontrar a explicação. Um médium, neste caso um homem, explicava num pequeno filme como fazia exactamente o mesmo que Anne Germain apresentava na TVI. Isso ou apenas ter a noção de que tais poderes espirituais não têm a mínima possibilidade de existir. Mas de vez em quando aparecem algumas pessoas mais espertas que resolvem explorar, em seu proveito económico – pois é essa a verdadeira intenção – as crenças que podem existir em gente de formação religiosa, merecedora do respeito de quem eventualmente as não tenha.

Depois da Vida é um novo programa da TVI. Com excepção de agnósticos e ateus, toda a gente sente uma atracção especial para saber o que irá acontecer depois da Vida ou melhor depois da morte. Mais uma vez somos convidados na Televisão a assistir a um (im)perfeito embuste que devia envergonhar os responsáveis, os protagonistas e sobretudo o principal convidado que se prestou a tal espectáculo: uma senhora Inglesa que se intitula Médium capaz de convocar todo e qualquer espírito que queira contactar quem desejar ser contactado e se preste a colaborar naquele espectáculo. Inteligente é de facto para conseguir este tipo de actuação e receber uns bons honorários. Posso admirar o seu modo simples e simpático de actuar. Admiro também a capacidade da apresentadora que estamos habituados a ouvir nos seus programas onde se conhecem as suas estridentes gargalhadas que cansam os mais pacientes. De facto apareceu ali com uma voz grave que habitualmente não usa certamente para melhor convencer o auditório da seriedade do que se estava a passar: tradução simultânea das frases transmitidas à Médium pelos espíritos convocados. Perfeita tradução diga-se. Não tenho o direito de criticar os crentes que trocaram os embustes da bola de cristal, das cartas, das pedras ou da mesa de pé de galo pelo mesmo serviço prestado por tão elegante senhora. Tais factos são de há muito atribuídos a discutíveis poderes de telepatia ou hipnotismo desses auto-intitulados médiuns, juntamente com dados sobre a vida pessoal dos entrevistados, que são obtidos pelos mais variados processos, e que desse modo conseguem convencer as pessoas mais susceptíveis. Mas mesmo assim há quem defenda e quem ataque. Verdade absoluta não existe. E então fica-se pelos poderes ocultos. Integrado num espaço de entretenimento ou com comentadores imparciais ainda podia aceitar-se tal programa mas espanta-me ter sido anunciando como um acontecimento ímpar, digno de ser visto num mundo culto. E espanta-me sobretudo que alguém (*) que afirma preservar a sua vida privada e que possui entre nós uma reconhecida notoriedade em diversos aspectos da vida cultural, social e até política (um autarca) se tenha prestado a ser o convidado especial neste espectáculo. Para quem, como ele, defende a verdade e confessou ir ali por curiosidade, não se entende a sua comoção. Deu o seu aval a algo que não está provado. A cultura portuguesa sofreu mais um golpe.

Gil Montalverne

* Referia-me então sem o dizer textualmente a Moita Flores.

Catastroika

Para quem tem tempo para saber o que se passa.... Tempo e paciência.

O TRIUNFO DOS AGIOTAS

Este texto tem mais de um ano. Ficou premonitório, como eu gosto ........................................................... O TRIUNFO DOS AGIOTAS - UMA HISTÓRIA DE GANGSTERS POR ALFREDO BARROSO 1. «DUAS NAÇÕES» Benjamin Disraeli (1804-1881), aliás Lord Beaconsfield (desde 1876), foi um dos políticos ingleses mais notáveis do século XIX. Conservador e reformador com preocupações sociais, chegou a advogar uma aliança entre a aristocracia e a classe trabalhadora, sugerindo que os aristocratas deviam usar o seu poder para ajudar a proteger os mais pobres. Além de ter sido Primeiro Ministro da Rainha Vitória (e do Império Britânico) durante a década de 1870, foi um escritor popular que expressou em alguns dos seus romances as suas preocupações em relação à pobreza e à injustiça do sistema parlamentar, que ele ajudou a reformar com o apoio do Partido Liberal (já chefiado por William Gladstone, que viria a suceder-lhe como Primeiro Ministro). Num dos seus romances mais conhecidos, Sybil (1844), Disraeli descreve uma Inglaterra dividida em «duas nações», a dos ricos e a dos pobres, entre as quais «não há nem relacionamento nem simpatia». Cenário que se repetiria no século XX, com algumas adaptações, mas a mesma crueldade, durante os Governos de Margaret Thatcher, e que ameaça repetir-se no século XXI com o Governo de David Cameron. Tal como essas «duas nações» inglesas de costas voltadas uma para a outra, também hoje se poderá falar de «duas Américas», de «duas Europas» ou, mesmo, de «duas nações» de costas voltadas em vários países da União Europeia. Estamos, de facto, a viver uma crise profunda e a assistir a uma degradação inquietante da democracia representativa. Há uma distância cada vez maior entre a classe política e os cidadãos, entre o povo e os seus representantes, entre a minoria dos muito ricos e o resto da sociedade, com uma classe média em erosão acentuada que vai engrossando as fileiras dos pobres e desempregados. O partido dos abstencionistas é cada vez maior e a representação política é cada vez mais a imagem inversa do país real. Em sondagem recentemente publicada por vários jornais europeus, constata-se que aumentou significativamente a desconfiança dos cidadãos europeus na capacidade dos Governos e respectivas oposições para resolver os problemas económicos. Cresce a sensação de que os políticos nacionais já não têm autonomia para tomar as decisões indispensáveis para combater eficazmente a crise nos seus países, tal como a noção de que esses políticos foram substituídos pelos novos poderes fácticos: mercados e especuladores financeiros, bancos e agências de rating, tecnocratas e políticos escolhidos em instâncias superiores, que tomam decisões além-fronteiras encerrados em «torres de marfim» (BCE, FED, Wall Street, City, Bruxelas, etc.). Alguém lembrava recentemente uma famosa frase de um dos actores da Revolução Francesa, o abade Emmanuel-Joseph Sieyès: «O poder vem de cima, a confiança vem de baixo». Quando o topo e a base se afastam entre si excessivamente, o poder vai perdendo a autoridade à medida que a confiança se degrada. E vai tomando forma, entre o povo, o sentimento de que existem «duas nações» ou «dois países»: um país de cima, constituído pelos muito ricos, por uma minoria de pessoas moldadas na mesma matriz, que obedecem aos mesmos códigos e vivem encerradas na mesma «torre de marfim»; e um país de baixo, constituído pela grande maioria abandonada à sua sorte, esquecida pelos que tudo têm, pelas elites, vítima de uma espécie de desprezo de classe. Como salienta o filósofo esloveno Slavoj Zizek, «o capitalismo actual move-se segundo uma lógica de apartheid, em que uns poucos se sentem com direito a tudo e a grande maioria é constituída por excluídos». Sendo certo que, como ele também diz, «os capitalistas actuais são fanáticos religiosos que defendem a todo o custo os seus lucros, mesmo que causem a ruína de milhões de pessoas». É a lógica neoliberal. 2. NEOLIBERALISMO Não se trata de uma fantasia imaginada por esquerdistas. Como nos explica David Harvey, no seu livro O enigma do capital e as crises do capitalismo (Editorial Bizâncio, 2011), o termo neoliberalismo «refere-se a um projecto de classe que foi tomando forma durante a crise da década de 1970». «Mascarado por muita retórica sobre liberdade individual, autonomia, responsabilidade pessoal e as virtudes da privatização, do mercado livre e do comércio livre, o termo neoliberalismo legitimou políticas draconianas concebidas para restaurar e consolidar o poder da classe capitalista. Projecto que tem sido bem sucedido, a julgar pela incrível concentração de riqueza e poder que se verifica em todos os países que enveredaram pela via neoliberal. E não há provas de que esteja morto» – ao contrário do que pensam os que não se cansam de falar de um «novo paradigma», mas não conseguem sequer defini-lo ou explicá-lo. Num texto publicado em 2000, A mão invisível dos poderosos, Pierre Bourdieu dizia que «a visão neoliberal é difícil de combater com eficácia porque, sendo conservadora, apresenta-se como progressista e pode remeter para o lado do conservadorismo, e até do arcaísmo, todas as críticas que lhe são dirigidas, nomeadamente aquelas que tomam por alvo a destruição das conquistas sociais do passado». Todavia, é um facto que «o neoliberalismo visa destruir o Estado social, a mão esquerda do Estado (que é fácil mostrar ser o melhor garante dos interesses dos dominados, desprovidos de recursos culturais e económicos, mulheres, etnias estigmatizadas, etc.)». Para os que praticam esta doutrina, é a Economia que está «no centro da vida» – e não o Homem. E acham que o mercado não se dá bem com a res publica. De facto, o neoliberalismo está na base daquilo que alguns designam por «hipercapitalismo» e, evidentemente, na base da «financeirização da economia». A finança - que nunca devia ter deixado de ser um meio, um instrumento, uma alavanca - tornou-se um fim em si mesma. O dinheiro é rei e o homem é súbdito, a especulação financeira não conhece limites nem regras, o lucro imediato é o Santo Graal. Pior: a dívida é consubstancial, é indispensável ao bom funcionamento do sistema. A ganância e o egoísmo estão na essência do hipercapitalismo. São os agiotas, e não os políticos, que governam o mundo e estão a dar cabo da democracia representativa. O hipercapitalismo, é bom lembrar, nasceu nos EUA e em Inglaterra durante a década de 1980, nos anos Reagan-Thatcher (e também teve como fiéis executores, através de férreas ditaduras militares, o general chileno Augusto Pinochet, assim como os generais brasileiros e argentinos, todos adeptos da doutrina neoliberal elaborada por Milton Friedman, acolitado pelos seus «Chicago boys»). Foi nessa altura que a progressão dos salários começou a ser bloqueada, o desemprego em massa gerou a precariedade e esta foi instituída em regra, ao mesmo tempo que os accionistas passaram a ser privilegiados em detrimento do factor trabalho. A acentuada diminuição da parte dos salários dos trabalhadores na redistribuição das riquezas, que partiu do mundo anglo-saxónico, alastrou em seguida a todos os países desenvolvidos e foi reforçada pela irrupção da China e da sua mão-de-obra barata. Só que, para a máquina continuar a funcionar, era preciso que os assalariados consumissem. Para tanto, urgia estimulá-los a endividar-se, e a sobreendividar-se, enquanto as desigualdades se iam acentuando. «Você não ganha o suficiente? Peça emprestado, consuma, sobretudo produtos importados baratos, e o mundo continuará a girar». O hipercapitalismo tem, estruturalmente, necessidade de um endividamento sempre crescente para prosperar. E as vítimas tanto são os indivíduos como os Estados. Desregulamentação financeira, baixos salários, aumento do trabalho precário, feminização crescente da mão-de-obra (e da pobreza) a nível mundial, acesso do capital às reservas de mão-de-obra barata em todo o mundo – são algumas das características essenciais da doutrina neoliberal, que estão na base da famosa globalização e da subordinação dos governos às exigências do mercado. Ao Estado passou a estar reservada uma função essencial: a de usar o seu poder para proteger as instituições financeiras a qualquer preço (em contradição, aliás, com o não intervencionismo que é preconizado pela doutrina neoliberal). No fundo, trata-se - como salienta David Harvey «com toda a crueza» - de «privatizar os lucros e socializar os riscos», de «salvar os bancos e extorquir ao povo». A pretexto de não poder haver um risco sistémico, «os bancos comportam-se mal porque não têm de responsabilizar-se pelas consequências negativas dos seus comportamentos de alto risco». Como se viu nos EUA e no Reino Unido, a partir da brutal crise das hipotecas subprime, em 2008. E como se viu em Portugal, no caso absolutamente escandaloso do BPN. Mas há muitos mais exemplos. É verdade o que diz Jean-Claude Trichet, presidente do BCE: «Os bancos teriam todos desaparecido se nós não os tivéssemos salvo». Mas o paradoxo é evidente: os Estados endividaram-se para evitar o colapso dos bancos, mas agora são os bancos que impõem aos Governos a adopção de políticas de austeridade brutais, que podem conduzir ao colapso dos Povos e dos Estados. Para tanto, socorrem-se das já famosas agências de rating, que «espancam» os Governos até estes atirarem «a toalha ao chão». 3. «GANGSTERISMO» Parece-me ser a expressão mais adequada para descrever a actividade das agências privadas de qualificação de riscos, mais conhecidas como agências de rating. Trabalham para quem lhes paga, sobretudo os bancos, proporcionando aos especuladores financeiros, e aos investidores oportunistas de alto calibre, juros sempre mais elevados para os seus empréstimos. Para tanto, «sovam» os Governos de vários países em sérias dificuldades económicas e financeiras, até eles não aguentarem mais «espancamentos». E se continuarem a resistir, apontam-lhes uma «pistola» à cabeça e ameaçam: «Ou cedes ou morres de bancarrota»! As agências de rating são, assim, uma espécie de gangsters ao serviço da agiotagem. Apesar da veneração que suscitam entre os economistas e jornalistas especializados ao serviço do capital financeiro, as agências de rating não são entidades de direito divino. De facto, são empresas privadas ao serviço de interesses privados, que acumulam já, ao longo da sua história, muitos casos de manifesta incompetência, escandaloso favoritismo e oportunismo irresponsável. Além disso, não são avaliadas nem fiscalizadas por qualquer entidade reguladora e, ainda por cima, funcionam praticamente em regime de oligopólio: apenas três agências - Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch - repartem entre si mais de 90 % do mercado e as duas primeiras quase 80 %. Para já nem falar dos óbvios conflitos de interesses em que incorrem. O actual Presidente da República, Cavaco Silva, gostaria de impor um silêncio patriótico aos políticos e comentadores (infelizmente, poucos!) que criticam as agências de rating. Todavia, abundam os casos em que elas contribuíram para agravar as crises. Vejamos dois exemplos recentes. Desde logo, o caso do magnata Bernard Maddoff, sem dúvida um dos maiores vigaristas do século, que exibia, no cartão de apresentação da sua entidade financeira, um rutilante triplo A (AAA), que é a classificação positiva máxima atribuída pelas agências de rating. Foi parar à cadeia. Depois, o caso das famosas hipotecas subprime e dos tão sofisticados como «tóxicos» produtos financeiros que ajudaram a fabricar, que incluíam nomeadamente títulos de dívida (obrigações) do Lehman Brothers. Todos eles beneficiaram também de um rutilante triplo A. Mas foi precisamente a falência do Lehman Brothers que desencadeou a gigantesca crise financeira de 2008, nos EUA, que depois alastrou à Europa, e cujas consequências ainda hoje estamos a sofrer. Vale a pena lembrar aqui uma passagem do relatório final da Comissão de Investigação do Congresso dos EUA que foi constituída para apurar as causas da grave crise financeira. Reza assim: «Concluímos que os erros cometidos pelas agências de qualificação de riscos (agências de rating) foram engrenagens essenciais na maquinaria de destruição financeira. As três agências foram ferramentas chave do caos financeiro. Os valores relacionados com hipotecas, no coração da crise, não se teriam vendido sem o selo de aprovação das agências. Os investidores confiaram nelas, na maioria dos casos cegamente. (…) Esta crise não teria podido ocorrer sem as agências de rating. As suas qualificações (máximas) ajudaram o mercado a disparar, e quando tiveram de baixá-las (até ao nível de «lixo»), em 2007 e 2008, causaram enormes estragos». O relatório salienta que a Moody’s - que em 2006 foi uma autêntica fábrica de atribuição de classificações máximas a títulos hipotecários - deve ser considerada como um case study sobre as más práticas que provocaram a crise. De facto, entre os anos 2000 e 2007, a Moody’s considerou como de máxima solvência (AAA) nada menos do que 45.000 valores relativos a hipotecas. O relatório refere a existência de modelos de cálculo desfasados, as pressões exercidas por empresas financeiras e a ânsia de ganhar quota de mercado que se sobrepôs à qualidade das qualificações atribuídas. Mas, apesar destas conclusões devastadoras para a credibilidade das agências de rating, estas não hesitaram em aumentar os salários e prémios dos seus executivos, já depois de conhecido o relatório. O caso da Moody’s foi o mais escandaloso. O seu presidente executivo, Raymond Mc Daniel, recebeu em 2010 um aumento de 69 % do seu salário anual, que trepou até aos 9,15 milhões de dólares (cerca de 6,4 milhões de euros). Um motivo invocado, entre outros, foi o facto de ter ajudado a «restaurar a confiança (!) nas qualificações atribuídas pela Moody’s Investors Service, ao elevar o conhecimento sobre o papel e a função dessas qualificações». Raymond Mc Daniel foi chamado a testemunhar perante a Comissão de Inquérito acompanhado pelo principal accionista da Moody’s, Warren Buffet. Mas este lavou as mãos, como Pilatos, declarando que não fazia a menor ideia sobre a gestão da agência, e que nunca lá tinha posto os pés. Explicou, no entanto, que tinha investido na empresa porque o negócio das agências de rating era «um duopólio natural, o que lhe dava um incrível poder sobre os preços»! Na transcrição do depoimento de Raymond Mc Daniel perante a Comissão de Inquérito do Congresso também surge uma declaração surpreendente. Disse ele: «Os investidores não deveriam confiar nas qualificações (das agências) para comprar, vender ou manter valores»! Não foi ingenuidade. Foi insolência e hipocrisia. Infelizmente, em relação a Portugal, ninguém seguiu o conselho deste senhor Raimundo… 4. PORTUGAL Cumpriu-se o fado. O destino marca a hora. Como na famosa canção de Tony de Matos: «Se o destino nos condena / Não vale a pena / Lutarmos mais». Portugal foi «sovado» pelas agências de rating até à exaustão. Estava marcado para «morrer de bancarrota» se não cedesse às exigências do capital financeiro. No dia 5 de Abril de 2011, o «Jornal de Negócios» noticiava: «Bancos cortam crédito ao Estado». E explicava: «Os banqueiros reuniram-se ontem no Banco de Portugal. Não vão financiar mais o Estado. Querem um pedido de ajuda intercalar de 15 mil milhões – e já! O Governo tem de pedir e o PSD e o PP têm de subscrever». «E já!». Perceberam? Foi assim, sem qualquer pudor, que o ultimato foi anunciado, que a «pistola» foi apontada à cabeça da vítima que já estava na fila de espera para ser «garrotada» pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Cerca de 24 horas depois, já tínhamos direito a ouvir o sr. Olli Rehn (criatura finlandesa em quem não votámos e que fala inglês aos soluços) a explicar à Europa e ao Mundo o que é bom para Portugal - e não necessariamente para a grande maioria os portugueses. Olli Rehn é comissário europeu para os Assuntos Económicos e Monetários. Trabalha, portanto, sob a direcção (!?) do sr. Durão Barroso, ex-presidente do PSD e ex-primeiro-ministro, que foi «sovado» pelo PS (de Ferro Rodrigues) nas eleições europeias de 2004 e que, a seguir, abandonou o Governo que chefiava «com o rabo entre as pernas», pouco depois de ter prometido ao país que não o faria, para ir ocupar em Bruxelas o cargo de presidente da Comissão Europeia, que lhe foi oferecido pela direita. Como escreveu Pierre Bourdieu há onze anos: «Temos uma Europa dos bancos e dos banqueiros, uma Europa das empresas e dos patrões, uma Europa das polícias e dos polícias, teremos em breve uma Europa das forças armadas e dos militares» (esta está quase!). Infelizmente, ainda não existe um movimento social europeu unificado, capaz de reunir diferentes movimentos, sindicatos e associações de diferentes naturezas, e capaz de resistir eficazmente às forças dominantes, a essa «Europa que se constrói em torno dos poderes e dos poderosos e que é tão pouco europeia». Ao contrário do que algumas vozes bem intencionadas andaram a proclamar, a gravíssima crise económica e financeira desencadeada pelas más práticas do hipercapitalismo não deu origem a um «novo paradigma». Paralisada (e neutralizada) pelas sucessivas concessões que fez à doutrina neoliberal, a social-democracia europeia assiste, política e ideologicamente desarmada, ao que alguns já designam como «nova contra-revolução social thatchero-reaganiana». Até onde poderá ela ir? Nesta verdadeira guerra dos «mercados» contra os Estados, foi manifesta a incapacidade dos europeus para definir uma estratégia progressista comum para enfrentar a crise. Isso foi perfeitamente percebido pelos «mercados», que decidiram aproveitar essa sua vantagem para atacar frontalmente os Estados mais frágeis, com o objectivo de desregular ainda mais os mercados internos e de exigir mais privatizações. E é exactamente isso que está a acontecer aqui e agora. A estratégia europeia de saída da crise mundial é clara: desregulação dos mercados de trabalho, deflação salarial, desemprego estrutural, menor protecção no emprego, restrições orçamentais, privatizações em massa, etc. É uma estratégia aparentemente paradoxal, que torna ainda mais vorazes os «mercados», que exigem sempre tudo e nunca se sentem saciados. Mas é também uma estratégia fundamentalmente recessiva, que pode provocar um aumento significativo das reivindicações sociais e políticas. «Neste braço-de-ferro, o estatuto do euro é um teste definitivo», dizem os entendidos. E a questão está em saber se «será, finalmente, posto ao serviço da promoção de um modelo social sustentável» ou «irá tornar-se o vector da destruição do que resta do Estado de bem-estar europeu». Os exemplos da Grécia, da Irlanda e de Portugal não auguram nada de bom para o Estado social. Como já se noticia, a «ajuda» financeira do FEEF e do FMI servirá, essencialmente, para Portugal «pagar o que deve aos credores, sobretudo bancos estrangeiros que, ao longo de décadas, foram fornecendo fundos aos bancos nacionais e que estes depois canalizavam para a compra de casas, carros e créditos às empresas» («DN», 08/04/2011). Para além de cortes em salários, pensões, subsídios de desemprego e outras prestações sociais, fala-se em «reformas mais profundas do mercado de trabalho, menor protecção no emprego, maior abertura da Educação e da Saúde aos privados, subida dos impostos». (O dr. Passos Coelho deve estar radiante!). Também se diz que «mal as condições melhorem, o Estado deve começar a sair (privatizar) das empresas de transportes. Casos da ANA, TAP, CP, Refer, Carris, Metro de Lisboa e do Porto». Não haverá mais nada para privatizar? Claro que há! Um Estado bem desmantelado dá para enriquecer vários oligarcas. Enfim, temos este país pronto a morrer da cura. Graças ao «trabalho sujo» das agências de rating (os «gangsters» desta história) ao serviço dos «mercados» (os agiotas). Mas também graças aos «bons ofícios» do actual Presidente da República, à «ansiedade do pote» de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, e ao extraordinário «sentido de oportunidade» de Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã. Sem esquecer as evidentes responsabilidades de José Sócrates, que não resistiu às sucessivas concessões que foi fazendo ao «blairismo» e ao «neo-centrismo», ou seja, à doutrina neoliberal. Observação final. Várias são as vozes que afirmam que o FMI não é nenhum papão e não mete medo a ninguém, porque já cá esteve no século passado e tudo correu às mil maravilhas. É quase verdade, mas esquecem-se de um pequeno pormenor que faz toda a diferença: é que, quando o país sair exausto e exangue dos próximos anos de brutal austeridade, não haverá mais uma CEE à nossa espera para «inundar» Portugal com as «catadupas» de fundos comunitários que fizeram a felicidade do cavaquismo! Lisboa, 9 de Abril de 2011 ALFREDO BARROSO

AFINAL A SOLIDARIEDADE EXISTE


A onda de solidariedade formada a partir do momento em que foi lançado um apelo para encontrar um dador compatível para o transplante de medula óssea que salvasse o pequeno Gustavo, filho do jogador internacional de futebol Carlos Martins, foi de tal maneira intensa, espalhando-se rapidamente por todo o mundo, que mais uma vez nos deve convencer a todos de que ela, a solidariedade, existe. Como se fosse um gigantesco "tsunami" a invadir o globo, ultrapassou fronteiras, mas em vez de destruir – antes pelo contrário – foi construindo alicerces de novas fontes de vida e de esperança para todos aqueles que, em qualquer outro lugar distante, podem estar aguardando, como acontecia ao pequeno Gustavo, uma amostra compatível que os salve do perigo eminente que os aguarda. Esqueceram-se certamente querelas ou credos religiosos, diferenças ou orientações políticas, todo e qualquer obstáculo que infelizmente acontece nos dias de hoje para nos separar uns dos outros. Certamente que o mediatismo à volta de uma figura famosa no desporto internacional pode ter contribuído para tornar mais rápido e de certo modo fulgurante o modo como essa onda se espalhou. Mas não foi só a partir de estádios de futebol como aconteceu por exemplo na Rússia e nos vários centros desportivos onde se multiplicavam os apelos para que todos acorressem a doarem as necessárias amostras de sangue. Formaram-se filas intermináveis, para as quais muito contribuíram também profissionais de enfermagem e farmacêuticos. Poderá dizer-se que as modernas tecnologias da comunicação, muitas vezes contribuindo em sentido contrário ao do interesse da população, foram desta vez um modo mais que perfeito de espalhar a notícia, o apelo, a contribuição para um aumento considerável do registo mundial de dadores. E finalmente no dia 12 de Maio, era encontrado um dador compatível nos Estados Unidos. Gustavo teria finalmente a possibilidade de ser curado. E, para além da grande alegria que causou naturalmente aos seus familiares e também a todos os que colaboraram nesta acção maravilhosa de se esforçarem por encontrar uma solução urgente e necessária para salvar uma vida, existem conclusões a tirar. É conhecida a tendência natural para acreditar que, todo o ser humano tem o seu lado bom e o lado menos bom. Mas mais ainda – e o mundo actual parece estar a ser uma prova disso – que persiste em muitos deles uma necessidade de alcançar o poder e a fortuna a qualquer preço, deixando que permaneçam à sua volta os que se esforçam por sobreviver, às vezes com o mínimo que lhes garanta a sobrevivência e outros mesmo abaixo do limite daquilo a que se poderia chamar uma vida digna, com carências de toda a espécie, na habitação, na saúde e na alimentação. O fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior. E é difícil saber o caminho a que tal situação nos conduzirá. Perante o exemplo de solidariedade humana que acabámos de presenciar, e pese embora o mediatismo do nome envolvido, conclui-se – ou eu pelo menos concluo – que a solidariedade é possível. Ela existe se os homens acreditarem numa causa justa que seja capaz de os unir, contra tudo o que até aí os separava. Essa qualidade é afinal também intrínseca a todo o ser humano. É necessário acreditar e lutar para que se torne permanente em todos os conflitos que nos separam para com ela desfazer os degraus das diferenças e conseguir um lugar, um país e finalmente um mundo mais digno e melhor para todos, sem excepção. Poderão chamar-me visionário ou poeta. Mas a prova foi dada. Afinal a solidariedade existe. Voltemos agora ao pequeno Gustavo que recebeu ontem o transplante de medula óssea, rodeado pela melhor equipa de especialistas nessa matéria no IPO de Lisboa. Todos esperamos que em breve nos cheguem as notícias de que a terrível doença que o atingiu tenha sido debelada e vencida. Mas para toda a história que atinge neste momento o Gustavo, para a descrição criteriosa de um caso idêntico que ocorreu em Portugal, em curiosas situações relacionadas com o facto do dador de uma jovem menina ter sido um irmão recém- nascido, não só mas também por isso mesmo, pedimos licença a dois grandes amigos, ambos jornalistas de inegável valor, que mantém um dos melhores sites que nos relatam acontecimentos do passado e do presente, chamado “Casal das Letras”, para vos dirigir para o Post que acabam de publicar. Com a devida licença dos meus amigos Maria Augusta Silva e Pedro Foyos, leiam então o texto (de Pedro Foyos) que vai seguir-se e cliquem depois no link final para o resto da história, já com o "Casal das Letras":

A HISTÓRIA DE INÊS DO GUSTAVO E DO "CAPITÃO" MANUEL ABECASSIS ESTA MENSAGEM É PARA O GUSTAVO... ...MAS PODE SER LIDA TAMBÉM PELOS GRAÚDOS

Nos últimos tempos, Gustavo, muito se tem falado de ti, não só pela demora desesperante de oito meses para encontrar um dador de medula mas também e sobretudo pela notoriedade futebolística do teu pai, propiciadora de uma impressionante onda de solidariedade. Finalmente, Gustavo, vai ser possível realizar o transplante alogénico que debelará a tua aplasia medular. Desculpa empregar estas palavras complicadas, mas as doenças terríveis escondem-se sempre nestes emaranhados para aliviarem o peso da realidade. De momento, Gustavo, agora que tudo foi feito no sentido de o teu organismo não vir a rejeitar as novas células que vai receber, é importantíssimo que saibas o seguinte: estará sempre a acompanhar-te uma equipa fabulosa, tanto que, se fosse possível transpô-la para o campo futebolístico, nem o teu pai conseguiria evitar uma derrota por dez a zero! O velho capitão dessa equipa invencível chama-se Manuel Abecassis. Já o deves ter visto aí no IPO. É aquele senhor de cabelo branco com laivos de prata e olhos doces que de vez em quando te espreita e te sorri enquanto vai conversando rodeado dos restantes jogadores: conversas sobre táticas de ataque, fintas, coisas assim, bem conheces a toada. Sabes que ele foi o pioneiro em Portugal neste género de desafios? Pioneiro quer dizer: foi o primeiro a driblar em toda a linha um adversário de respeito no campo em que tu estás agora, precisamente aí. Esse adversário, com o feiíssimo nome de Leucemia, levou cá uma cabazada! O costume, dez a zero, toma lá e vai decorar. Porém, a grande vencedora, quem levou a Taça da Vida, maior do que ela própria, foi uma menina da tua idade, chamada Inês. Ela estava muito doente, a vida por um fio. A estratégia de então foi engraçada. Havia hipóteses de ser salva se tivesse um irmão ou uma irmã. Mas a Inês não tinha irmão nem irmã. Então os pais, com muito amor, resolveram fazer um bebé, ao qual seria dado o nome de João Miguel. E o João não esteve com meias medidas. Logo-logo que nasceu, a primeira coisa que fez foi salvar a Inês. Um dia terás interesse em conhecer "A história de Inês".

Basta clicares aqui e hop!... já lá estás. Ficarás espantado com as coisas extraordinárias que acontecem neste mundo. A começar por ti. Gustavo: vemo-nos no final do dérbi, na festa da vitória.

Os criadores de emprego

(Tradução via Joana Manuel) ‎ ”É espantosa a forma significativa como uma ideia pode moldar uma sociedade e as suas políticas. Vejam este exemplo: Se os impostos dos ricos subirem, a criação de emprego diminui Esta ideia é um dogma de fé para os republicanos americanos que só raramente é contraposta pelos democratas e tem moldado grande parte do nosso panorama económico. Mas por vezes ideias que tomamos como verdadeiras estão fundamentalmente erradas. Durante milhares de anos acreditou-se que a Terra girava em torno do Sol. Não é verdade, e um astrónomo que ainda acredite nisso não será muito bom na sua profissão. Eu iniciei, ou ajudei a iniciar, dezenas de empreendimentos que começaram por contratar imensa gente. Mas sem ninguem nem que tenha poder de compra para comprar o que tinhamos para vender, todos os meus negócios teriam fracassado, e todos esses postos de trabalho ter-se-iam evaporado. É por isso que posso dizer com segurança que os ricos não criam emprego, nem sequer as empresas, pequenas ou grandes. O que leva a maior emprego é um cíclo vicioso entre clientes e empresas semelhante ao ciclo da vida. E apenas os consumidores podem iniciar esse ciclo virtuoso de aumento de procura, o que leva à contratação. Neste sentido, um consumidor normal de classe média é um “criador de emprego” bem maior que um capitalista como eu. Por isso, quando homens de negócios se congratulam por criar emprego, é como esquilos congratularem-se pela evolução das espécies. Na verdade, o sentido é inverso. Toda a gente que tenha um negócio sabe que a contratação é o último recurso de um capitalista, algo que fazemos apenas quando o aumento da procura o exige. E neste sentido, chamar-nos de criadores de emprego é falacioso. É por isso que as nossas políticas correntes estão todas ao contrário. Quando temos um sistema fiscal em que a maioria das isenções e as taxas mais baixas beneficiam os ricos, tudo em nome da “criação de emprego”, a única consequência é os ricos ficarem mais ricos. Desde 1980 que a percentagem de receitas para os americanos mais ricos mais que triplicou, enquanto a sua carga fiscal diminuiu cerca de 50%. Se fosse verdade que impostos mais baixos e mais riqueza para os ricos leva à criação de emprego, então estariamos a nadar em empregos. E, no entanto, o desemprego e a precariedade estão a níveis recorde. Outro motivo pelo qual esta ideia é tão errada é o facto de não ser possível a existência de ultra milionários em número suficiente para dinamizar a economia. O rendimento anual de pessoas como eu é centenas, se não milhares de vezes superior ao do americano médio, mas nós milionários não consumimos centenas ou milhares de vezes mais coisas. A minha familia tem três carros, não 3.000. Compro alguns pares de calças e algumas camisas ao ano, tal como o americano comum. E tal como o americano comum, saio para jantar com a minha familia e amigos apenas ocasionalmente. Não posso comprar coisas que cheguem para compensar o facto de milhões de desempregados e precários americanos não conseguirem comprar roupa, ou carros, ou poder ir jantar fora. Ou para compensar o consumo decrescente da vasta maioria de americanos que vivem com o orçamento à justa, enterrados numa espiral de preços cada vez mais altos e salários estagnados ou em recessão. Eis um facto incrível: Se a família americana típica ganhasse percentualmente o mesmo que em 1980, teriam salários 25% mais elevados, e correspondente em média a uns espantosos $13.000 a mais por ano. E como estaria a economia se fosse esse o caso? Capitalistas como eu receberam privilégios significativos por sermos vistos como “criadores de emprego”, no centro do universo económico, e a linguagem e as metáforas que usamos para defender a justiça da corrente situação socioeconómica diz muito. É um pequeno passo de “criador de emprego” a “O Criador”. A escolha de palavras não é acidental, e há que ter a honestidade de admitir que chamarmo-nos a nós mesmos “criadores de emprego” é uma afirmação sobre o funcionamento da nossa economia que nos confere estatuto e privilégios. O diferencial extraordinário entre uma taxa de 15% em ganhos capitais, dividendos e jutos acumulados para os capitalistas e uma taxa marginal de topo de 35% para o americano comum é um privilégio difícil de aceitar sem um toque de endeusamento. Percebemos tudo ao contrário nos últimos 30 anos. Homens de negócios ricos como eu não criam empregos. São, ao invés disso, a consequência de um feedback eco-sistemico sustentado e animado pelos consumidores de classe média, que são a razão que fazem os negócios prosperar, as empresas crescer e contratar, e os seus donos lucrar. É por isso que taxar os ricos para realizar investimentos para benefício de todos é um excelente negócio tanto para ricos como para a classe média. Portanto, eis uma ideia que vale a pena espalhar: Numa economia capitalista, os verdadeiros criadores de emprego são os consumidores, a classe média. E taxar os ricos para realizar investimentos que fortaleçam a classe média é pura e simplesmente a coisa mais inteligente que podemos fazer pela classe média, pelos pobres e pelos ricos. Obrigado.”

O EFEITO TITANIC





Para os visitantes, deixo a promessa de que amanhã estará aqui o texto que se identifica com esta imagem. Acredito que até exista muita gente que entende o que vou aqui dizer e o que isto significa. Se conhecem o efeito borboleta, este não é exactamente a mesma coisa mas o conceito poderão ler aqui mesmo em breve. Este amanhã tem demorado mas está prometido que aqui estarei em breve com o meu texto

UMA MARAVILHA A NÃO PERDER



Tive a felicidade de ver dançar Maya Plisetskaya em Lisboa como primeira bailarina do Ballet Bolshoi de Moscovo, lugar a que ascendera após o afastamento de Galina Ulanova que também tive a oportunidade de ver dançar. Maya Plisetskaya concedeu-nos dois espectáculos no Coliseu dos Recreios. Conservo uma grata recordação da sua interpretação em Spartakus e muito especialmente na Morte do Cisne que aqui se apresenta, no final deste meu pequeno texto.
Eu ficara francamente entusiasmado com a sua performance, estando habituado a ver outras interpretações de várias grandes bailarinas que aqui tinham actuado,no Teatro Nacional de S.Carlos ou no antigo Tivoli. Os aplausos entusiásticos do público português foram a prova de que, apesar dos
seus 58 anos e contrariamente à opinião de muitos especialistas nesta área, ela estaria ainda no auge da sua carreira. Depois do espectáculo tive oportunidade de a entrevistar para a Radiodifusão Portuguesa e ela ofereceu-me uma grande fotografia em Poster autografado que existe agora em minha casa em local bem visível. Durante a nossa conversa, recordo a sua afirmação “dançarei enquanto sentir a atenção das salas. Dou às pessoas tudo o que posso dar-lhes, mas se esse interesse desaparecer, deixarei os palcos sem hesitar”. Mas ficou ainda durante muitos anos. Ela confessava-nos que desde muito nova não gostava de submeter-se à disciplina e que talvez por isso ainda improvisasse tantas vezes. “Amei sempre a improvisação mas nunca tentei memorizar o que fazia”. No entanto, a grande bailarina, que é, dir-nos-ia também que para ela “a música é tudo. E embora haja dança sem música e nesse caso sejam o corpo e a alma que devem cantar, quando a música canta é preciso dançá-la, não dançar sobre a música mas a música propriamente dita e tentar que o público a sinta”. Ao rever agora esta sua “Morte do Cisne”, bailado criado pela célebre Anna Pavlova e gravado por Plisetskaya com 61 anos de idade, humildemente confesso que fiquei ainda mais maravilhado e o achei mais extraordinário do que quando a vi em Lisboa três anos antes. Foi com este bailado que iniciou a sua carreira aos 18 anos no Bolshoi. Os movimentos dos seus braços e mãos (reparem bem) parecem que se deslocam voando ao sabor do vento, em pleno espaço, como se fossem penas de um cisne. A visão é ao mesmo tempo impressionante e comovedora. Inesquecível Morte do Cisne! Vejam e revejam quantas vezes quiserem. Foi um prazer para todos os que a viram dançar. Para esses e para os outros, aqui está o quanto tem de maravilhoso para não se perder.


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Paz

Portugal está a ser assassinado

aqui demos voz a este senhor John Perkins. Esteve em Portugal e falou de nós. Aqui fica a entrevista.

John Perkins


No fim do ano passado escreveu um artigo onde afirmava que a Grécia estava a ser atacada por assassinos económicos. Acha que Portugal está na mesma situação?
Sim, absolutamente, tal como aconteceu com a Islândia, a Irlanda, a Itália ou a Grécia. Estas técnicas já se revelaram eficazes no terceiro mundo, em países da América Latina, de África e zonas da Ásia, e agora estão a ser usadas com êxito contra países como Portugal.

Podres Poderes

Veteranos pela paz




David Korten

Dispenso-me de comentar. O Homem fala por si. Desculpem ser em inglês. Não encontrei com legendas.