Consumir bem... ou votar?



Mudar o mundo passa, cada vez mais, pelas nossas opções de consumo. Mais do que consumir menos, o importante é consumir bem. É a era do centro comercial como palco da mudança, da revolução no consumo, do adeus às armas. Que diria Marx?

O Estado poderia usar os impostos para acelerar a mudança de comportamentos, mas haverá melhor incentivo do que ser possível provocar a mudança sem gastar dinheiro ou abdicar de conforto? Hoje, o cidadão tem maior poder através do consumo que através do voto. 



Tive de fugir à tentação de publicar aqui, na íntegra, este escrito de um amigo que vi crescer e cuja a acção me dá esperança nesta geração. João Meneses, que no seu livro "O peixe amarelo" condensa crónicas escritas para o Diário Económico entre 2006 e 2009 nas quais aponta pistas para tornar este mundo MELHOR. Embora não partilhe do optimismo e fé no capitalismo que ele perfilha, talvez pela idade (minha e dele) e pelos últimos acontecimentos que puseram a nu as fragilidades da economia capitalista, irei publicar aqui algumas dessas crónicas.
Esta, que aqui, aponto vem mesmo a propósito do comentário que fiz à última publicação do meu amigo Gil.

Onde está a Democracia?

O Governo e a Oposição estão constantemente a falar na Democracia e a dizer que a defendem (com unhas e dentes). E até todos se recordam como foi criticado um(a)líder partidário(a) por dizer que o melhor seria interromper por seis meses a democracia em que vivíamos. Portanto todos ou quase todos a defendem. E salvo raras excepções quase todos utilizam a expressão “na democracia em que vivemos...” E isto é também verdade para outros países que também se dizem - e aos quais designamos como tal – democráticos.
E afinal em que consiste essa democracia em que vivemos? Na sua origem, o termo ("demo+kratos") designaria um regime de governo em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo), directa ou indirectamente. Mas mesmo os países em que os governos são escolhidos democraticamente pelo povo, vão incluir governantes aos quais o povo não deu a sua confiança. E, mais do que isso, hoje em dia, existem uma série de organizações que governam os governos e que o povo não elegeu nem sequer conhece. José Saramago, numa das suas muitas intervenções explica melhor do que eu. Vale a pena ouvi-lo.

A culpa é do “sistema”

Apesar da crise que atravessamos, todos notamos que existe uma larga faixa da população que prossegue os seus dias, alimentando a indústria do consumo. A falta de dinheiro não intimida os anúncios televisivos que diariamente nos convidam a comprar, mesmo aquilo de que não precisamos. Há cerca de 40 anos já eu escrevia para um programa de Rádio o texto que a seguir vos deixo:
NA CIDADE IMAGINADA PELO ESCRITOR VANCE PACKARD, EM PLÉTORA, OS HABITANTES NÃO TINHAM MAIS PARA FAZER SENÃO CONSUMIR, CONSUMIR, CONSUMIR EM ALTO GRAU. DE TAL MODO QUE EM PLÉTORA, ALTIFALANTES, COLOCADOS ÀS ESQUINAS DAS RUAS, ACONSELHAVAM DIA E NOITE AS PESSOAS A COMPRAR MIL E UM PRODUTOS NO SUPER-MERCADO MAIS PRÓXIMO.
“DEITE FORA O SEU RELÓGIO NOVO E COMPRE OUTRO HOJE PORQUE É NECESSÁRIO COMPRAR RELÓGIOS PARA QUE PLÉTORA POSSA VIVER”
EM PLÉTORA, ÀS SEGUNDAS-FEIRAS, DEITAVAM-SE PARA AS TRASEIRAS DAS CASA OBJECTOS CHAMADOS ANTIQUADOS (COM UMA SEMANA APENAS) COMO POR EXEMPLO FRIGORÍFICOS E FOGÕES QUE ERAM IMEDIATAMENTE CONDUZIDOS ATRAVÉS DE TÚNEIS PARA SEREM TRANSFORMADOS EM SUCATA. E É CLARO QUE NESSE MESMO DIA, HAVIA QUE COMPRAR UM NOVO FRIGORÍFICO E UM NOVO FOGÃO.
AO LARGO DA CIDADE, EM PLENO MAR, AFUNDAVAM-SE NAVIOS DE RECREIO E IATES PARA QUE OUTROS PUDESSEM SER COMPRADOS. PLÉTORA, A CIDADE DE VANCE PACKARD, É A CIDADE DO CONSUMISMO EM QUE O CIDADÃO JÁ NADA MAIS TEM A FAZER SENÃO CONSUMIR E COMPRAR PARA QUE O SISTEMA PROSSIGA.

O Sistema! Não chegámos, é claro ainda (e felizmente que não chegámos) a Plétora. Mas diga-se de passagem que desde que haja dinheiro - e até mesmo quando o não há como na crise actual - o cidadão comum, de grande parte da sociedade em que vivemos, está também já influenciado por essa necessidade de comprar, comprar tudo o que aparece de novo, porque, mais um parafuso, um novo rótulo, mais uma luzinha a piscar, são indicadores (falsos, é claro) de que o que tínhamos já não presta e que aquilo é que é bom. O sistema, sempre o sistema.
Culpamos o sistema quando afinal o sistema somos nós. Se não mudarmos o homem que somos não mudamos o sistema. Eu sei, ou pelo menos dizem-me, que é necessário para a economia de um país que alguém alimente a indústria para que mais fábricas e pequenas empresas não vão à falência e não se gere mais desemprego. No entanto os recursos não são inesgotáveis. A quem é que ainda não sucedeu dirigir-se a uma loja para que lhe reparassem um pequeno electrodoméstico e lhe responderam que era melhor comprar um novo porque não há quem se dedique a fazer esses arranjos. E no entanto, se houvesse, com certeza era mais um emprego que se criava. Perdeu-se a paciência para esses pequenos arranjos. É o sistema. Sempre o sistema.

A fome dos países desenvolvidos.


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