AFINAL A SOLIDARIEDADE EXISTE


A onda de solidariedade formada a partir do momento em que foi lançado um apelo para encontrar um dador compatível para o transplante de medula óssea que salvasse o pequeno Gustavo, filho do jogador internacional de futebol Carlos Martins, foi de tal maneira intensa, espalhando-se rapidamente por todo o mundo, que mais uma vez nos deve convencer a todos de que ela, a solidariedade, existe. Como se fosse um gigantesco "tsunami" a invadir o globo, ultrapassou fronteiras, mas em vez de destruir – antes pelo contrário – foi construindo alicerces de novas fontes de vida e de esperança para todos aqueles que, em qualquer outro lugar distante, podem estar aguardando, como acontecia ao pequeno Gustavo, uma amostra compatível que os salve do perigo eminente que os aguarda. Esqueceram-se certamente querelas ou credos religiosos, diferenças ou orientações políticas, todo e qualquer obstáculo que infelizmente acontece nos dias de hoje para nos separar uns dos outros. Certamente que o mediatismo à volta de uma figura famosa no desporto internacional pode ter contribuído para tornar mais rápido e de certo modo fulgurante o modo como essa onda se espalhou. Mas não foi só a partir de estádios de futebol como aconteceu por exemplo na Rússia e nos vários centros desportivos onde se multiplicavam os apelos para que todos acorressem a doarem as necessárias amostras de sangue. Formaram-se filas intermináveis, para as quais muito contribuíram também profissionais de enfermagem e farmacêuticos. Poderá dizer-se que as modernas tecnologias da comunicação, muitas vezes contribuindo em sentido contrário ao do interesse da população, foram desta vez um modo mais que perfeito de espalhar a notícia, o apelo, a contribuição para um aumento considerável do registo mundial de dadores. E finalmente no dia 12 de Maio, era encontrado um dador compatível nos Estados Unidos. Gustavo teria finalmente a possibilidade de ser curado. E, para além da grande alegria que causou naturalmente aos seus familiares e também a todos os que colaboraram nesta acção maravilhosa de se esforçarem por encontrar uma solução urgente e necessária para salvar uma vida, existem conclusões a tirar. É conhecida a tendência natural para acreditar que, todo o ser humano tem o seu lado bom e o lado menos bom. Mas mais ainda – e o mundo actual parece estar a ser uma prova disso – que persiste em muitos deles uma necessidade de alcançar o poder e a fortuna a qualquer preço, deixando que permaneçam à sua volta os que se esforçam por sobreviver, às vezes com o mínimo que lhes garanta a sobrevivência e outros mesmo abaixo do limite daquilo a que se poderia chamar uma vida digna, com carências de toda a espécie, na habitação, na saúde e na alimentação. O fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior. E é difícil saber o caminho a que tal situação nos conduzirá. Perante o exemplo de solidariedade humana que acabámos de presenciar, e pese embora o mediatismo do nome envolvido, conclui-se – ou eu pelo menos concluo – que a solidariedade é possível. Ela existe se os homens acreditarem numa causa justa que seja capaz de os unir, contra tudo o que até aí os separava. Essa qualidade é afinal também intrínseca a todo o ser humano. É necessário acreditar e lutar para que se torne permanente em todos os conflitos que nos separam para com ela desfazer os degraus das diferenças e conseguir um lugar, um país e finalmente um mundo mais digno e melhor para todos, sem excepção. Poderão chamar-me visionário ou poeta. Mas a prova foi dada. Afinal a solidariedade existe. Voltemos agora ao pequeno Gustavo que recebeu ontem o transplante de medula óssea, rodeado pela melhor equipa de especialistas nessa matéria no IPO de Lisboa. Todos esperamos que em breve nos cheguem as notícias de que a terrível doença que o atingiu tenha sido debelada e vencida. Mas para toda a história que atinge neste momento o Gustavo, para a descrição criteriosa de um caso idêntico que ocorreu em Portugal, em curiosas situações relacionadas com o facto do dador de uma jovem menina ter sido um irmão recém- nascido, não só mas também por isso mesmo, pedimos licença a dois grandes amigos, ambos jornalistas de inegável valor, que mantém um dos melhores sites que nos relatam acontecimentos do passado e do presente, chamado “Casal das Letras”, para vos dirigir para o Post que acabam de publicar. Com a devida licença dos meus amigos Maria Augusta Silva e Pedro Foyos, leiam então o texto (de Pedro Foyos) que vai seguir-se e cliquem depois no link final para o resto da história, já com o "Casal das Letras":

A HISTÓRIA DE INÊS DO GUSTAVO E DO "CAPITÃO" MANUEL ABECASSIS ESTA MENSAGEM É PARA O GUSTAVO... ...MAS PODE SER LIDA TAMBÉM PELOS GRAÚDOS

Nos últimos tempos, Gustavo, muito se tem falado de ti, não só pela demora desesperante de oito meses para encontrar um dador de medula mas também e sobretudo pela notoriedade futebolística do teu pai, propiciadora de uma impressionante onda de solidariedade. Finalmente, Gustavo, vai ser possível realizar o transplante alogénico que debelará a tua aplasia medular. Desculpa empregar estas palavras complicadas, mas as doenças terríveis escondem-se sempre nestes emaranhados para aliviarem o peso da realidade. De momento, Gustavo, agora que tudo foi feito no sentido de o teu organismo não vir a rejeitar as novas células que vai receber, é importantíssimo que saibas o seguinte: estará sempre a acompanhar-te uma equipa fabulosa, tanto que, se fosse possível transpô-la para o campo futebolístico, nem o teu pai conseguiria evitar uma derrota por dez a zero! O velho capitão dessa equipa invencível chama-se Manuel Abecassis. Já o deves ter visto aí no IPO. É aquele senhor de cabelo branco com laivos de prata e olhos doces que de vez em quando te espreita e te sorri enquanto vai conversando rodeado dos restantes jogadores: conversas sobre táticas de ataque, fintas, coisas assim, bem conheces a toada. Sabes que ele foi o pioneiro em Portugal neste género de desafios? Pioneiro quer dizer: foi o primeiro a driblar em toda a linha um adversário de respeito no campo em que tu estás agora, precisamente aí. Esse adversário, com o feiíssimo nome de Leucemia, levou cá uma cabazada! O costume, dez a zero, toma lá e vai decorar. Porém, a grande vencedora, quem levou a Taça da Vida, maior do que ela própria, foi uma menina da tua idade, chamada Inês. Ela estava muito doente, a vida por um fio. A estratégia de então foi engraçada. Havia hipóteses de ser salva se tivesse um irmão ou uma irmã. Mas a Inês não tinha irmão nem irmã. Então os pais, com muito amor, resolveram fazer um bebé, ao qual seria dado o nome de João Miguel. E o João não esteve com meias medidas. Logo-logo que nasceu, a primeira coisa que fez foi salvar a Inês. Um dia terás interesse em conhecer "A história de Inês".

Basta clicares aqui e hop!... já lá estás. Ficarás espantado com as coisas extraordinárias que acontecem neste mundo. A começar por ti. Gustavo: vemo-nos no final do dérbi, na festa da vitória.

Os criadores de emprego

(Tradução via Joana Manuel) ‎ ”É espantosa a forma significativa como uma ideia pode moldar uma sociedade e as suas políticas. Vejam este exemplo: Se os impostos dos ricos subirem, a criação de emprego diminui Esta ideia é um dogma de fé para os republicanos americanos que só raramente é contraposta pelos democratas e tem moldado grande parte do nosso panorama económico. Mas por vezes ideias que tomamos como verdadeiras estão fundamentalmente erradas. Durante milhares de anos acreditou-se que a Terra girava em torno do Sol. Não é verdade, e um astrónomo que ainda acredite nisso não será muito bom na sua profissão. Eu iniciei, ou ajudei a iniciar, dezenas de empreendimentos que começaram por contratar imensa gente. Mas sem ninguem nem que tenha poder de compra para comprar o que tinhamos para vender, todos os meus negócios teriam fracassado, e todos esses postos de trabalho ter-se-iam evaporado. É por isso que posso dizer com segurança que os ricos não criam emprego, nem sequer as empresas, pequenas ou grandes. O que leva a maior emprego é um cíclo vicioso entre clientes e empresas semelhante ao ciclo da vida. E apenas os consumidores podem iniciar esse ciclo virtuoso de aumento de procura, o que leva à contratação. Neste sentido, um consumidor normal de classe média é um “criador de emprego” bem maior que um capitalista como eu. Por isso, quando homens de negócios se congratulam por criar emprego, é como esquilos congratularem-se pela evolução das espécies. Na verdade, o sentido é inverso. Toda a gente que tenha um negócio sabe que a contratação é o último recurso de um capitalista, algo que fazemos apenas quando o aumento da procura o exige. E neste sentido, chamar-nos de criadores de emprego é falacioso. É por isso que as nossas políticas correntes estão todas ao contrário. Quando temos um sistema fiscal em que a maioria das isenções e as taxas mais baixas beneficiam os ricos, tudo em nome da “criação de emprego”, a única consequência é os ricos ficarem mais ricos. Desde 1980 que a percentagem de receitas para os americanos mais ricos mais que triplicou, enquanto a sua carga fiscal diminuiu cerca de 50%. Se fosse verdade que impostos mais baixos e mais riqueza para os ricos leva à criação de emprego, então estariamos a nadar em empregos. E, no entanto, o desemprego e a precariedade estão a níveis recorde. Outro motivo pelo qual esta ideia é tão errada é o facto de não ser possível a existência de ultra milionários em número suficiente para dinamizar a economia. O rendimento anual de pessoas como eu é centenas, se não milhares de vezes superior ao do americano médio, mas nós milionários não consumimos centenas ou milhares de vezes mais coisas. A minha familia tem três carros, não 3.000. Compro alguns pares de calças e algumas camisas ao ano, tal como o americano comum. E tal como o americano comum, saio para jantar com a minha familia e amigos apenas ocasionalmente. Não posso comprar coisas que cheguem para compensar o facto de milhões de desempregados e precários americanos não conseguirem comprar roupa, ou carros, ou poder ir jantar fora. Ou para compensar o consumo decrescente da vasta maioria de americanos que vivem com o orçamento à justa, enterrados numa espiral de preços cada vez mais altos e salários estagnados ou em recessão. Eis um facto incrível: Se a família americana típica ganhasse percentualmente o mesmo que em 1980, teriam salários 25% mais elevados, e correspondente em média a uns espantosos $13.000 a mais por ano. E como estaria a economia se fosse esse o caso? Capitalistas como eu receberam privilégios significativos por sermos vistos como “criadores de emprego”, no centro do universo económico, e a linguagem e as metáforas que usamos para defender a justiça da corrente situação socioeconómica diz muito. É um pequeno passo de “criador de emprego” a “O Criador”. A escolha de palavras não é acidental, e há que ter a honestidade de admitir que chamarmo-nos a nós mesmos “criadores de emprego” é uma afirmação sobre o funcionamento da nossa economia que nos confere estatuto e privilégios. O diferencial extraordinário entre uma taxa de 15% em ganhos capitais, dividendos e jutos acumulados para os capitalistas e uma taxa marginal de topo de 35% para o americano comum é um privilégio difícil de aceitar sem um toque de endeusamento. Percebemos tudo ao contrário nos últimos 30 anos. Homens de negócios ricos como eu não criam empregos. São, ao invés disso, a consequência de um feedback eco-sistemico sustentado e animado pelos consumidores de classe média, que são a razão que fazem os negócios prosperar, as empresas crescer e contratar, e os seus donos lucrar. É por isso que taxar os ricos para realizar investimentos para benefício de todos é um excelente negócio tanto para ricos como para a classe média. Portanto, eis uma ideia que vale a pena espalhar: Numa economia capitalista, os verdadeiros criadores de emprego são os consumidores, a classe média. E taxar os ricos para realizar investimentos que fortaleçam a classe média é pura e simplesmente a coisa mais inteligente que podemos fazer pela classe média, pelos pobres e pelos ricos. Obrigado.”