Pedro e seu cão, Vadel






Pedro era um homem da cidade. Nascera numa cidade grande, crescendo rodeado de construções feias e vulgares, habitadas por vizinhos distantes, com os quais brincava, à distância. Desde cedo se habituou a lidar com a solidão. Só, no sentido da ausência do outro, mas tendo por companheiro o seu mundo, que ia construindo com sonhos, ancorados em projectos que ele sentia que poderia realizar. Certamente por isso, atravessou a vida e seus desafios com confiança. Mesmo nos mais difíceis momentos, sabia que podia contar consigo mesmo, mas aceitava uma ajuda, quando lha ofereciam, sempre acreditando que era sincera e desinteressada. Embora singular e de aspecto e trato desalinhado, fez amigos e amores, suscitou pequenos ódios e invejas, como qualquer mortal. Negociando com a vida, olhando com determinação e realismo os seus sonhos e objectivos, conseguindo alcançar alguns.
Mas a cidade deprimia-o. Aproveitava todas as oportunidades para se evadir para os locais onde o céu era mais azul e os verdes uma sinfonia de luz. Era lá, só ou com uma companhia que partilhasse essa realidade sonhada, que ele encontrava o seu equilíbrio.
O regresso ao mundo de ferro e pedra era sempre penoso e só suportado pela perspectiva de uma breve oportunidade de voltar ao seu verdadeiro mundo. Nos intervalos, pintava. Passava à tela o que na sua memória alimentava à espera do azul e verde. Sempre consciente da pobreza da sua arte, mas secretamente convicto que com ela podia motivar outros para o seu mundo, distribuía os seus quadros sem sequer os assinar, para que seus novos donos se sentissem como seus autores.
Pedro sentia que a cidade estava a mudar. À sua volta o ambiente parecia-lhe cada vez mais agressivo. A urgência do espaço verde gritava-lhe cada vez mais alto. O sonho de viver, para sempre, longe da cidade, ganhava estatuto de projecto. Pedro era um homem de projecto. Quando iniciava um, era para realizar. Passo a passo, essa ideia ia ganhando possibilidades. Tudo o que fazia era medido por esse objectivo. E Pedro, embora solitário por criação, contaminava os que lhe eram mais próximos, talvez numa tentativa de partilhar o seu sonho e assim conseguir que ele parecesse menos insólito. Amigos, família e seu filho eram aliciados, nem sempre discretamente, para esse mundo em que ele sabia que teria paz e equilíbrio.
Pedro sabia que para realizar esse sonho precisava de um apoio. Um suporte fiel, incansável, pronto para enfrentar as dificuldades e aceitar o afecto sem nada pedir em troca. Ele sabia que não poderia esperar isso de ninguém. Pedro era um romântico sonhador mas a vida tinha-se encarregado de o informar da natureza humana. Os animais sempre tinham povoado o seu quotidiano, mas cão era bicho com que nunca tinha privado. Mas quem não sabe das qualidades do cão como companheiro? A decisão de Pedro foi reforçada por amigos, mais familiarizados com o trato canino. Terá de ser um cão grande, diziam-lhe. De raça em raça e um pouco por acaso, como quase sempre acontece nos grandes momentos da vida, a escolha calhou num labrador manso e dourado, mas pleno de força obediente. Bicho abandonado depois da morte do seu dono que o amara, talvez até para além da morte. No início Pedro hesitou. Não tinha pensado numa responsabilidade tão grande. Mas logo no primeiro encontro as suas dúvidas se esfumaram. Vadel, de seu nome, tratou-o como se do antigo dono se tratasse. Cheirou-lhe as mãos e encostou-se, de imediato, às suas pernas, fitando o horizonte que Pedro olhava, como que a dizer-lhe: vamos, estou pronto para a viagem.
Pedro ainda pensou mudar-lhe o nome, cujo significado e origem ninguém sabia, mas um dos seus amigos, conhecedor e conselheiro, disse-lhe que nunca se muda o nome a um cão. Vadel ficou.
Pedro depressa se apercebeu que um cão dá trabalho. Mesmo um labrador, que aceita bem viver em casa, precisa de movimento, alimentação, cuidados médicos e, principalmente, atenção. A relação que se estabelece com esse animal inteligente depende da atenção e comunicação que o seu dono lhe presta.
Todos os que faziam parte do mundo de Pedro adoravam o Vadel. Sempre pronto para brincar, paciente e incansável, fazia as delícias da família, amigos e principalmente o filho de Pedro, João, um jovem adolescente, que inicialmente teria preferido um bicho mais vistoso e activo mas que, pouco a pouco, foi aprendendo a apreciar as características de robustez e fiabilidade do labrador .
Mas os objectivos de Pedro eram bem claros na sua cabeça. Vadel seria o seu suporte para e evasão da cidade para o campo, que há muito planeava.
Esse dia chegou mais cedo do que Pedro poderia supor. A cidade disse-lhe que já não precisava dele, pois não a idolatrava, e que lhe pagaria para que partisse. Para Pedro, essa notícia nefasta para muitos, foi acolhida com profundo alívio. Nessa Primavera, Pedro e o seu cão Vadel partiram à descoberta do local sonhado. Encontraram um planalto perto do mar onde o azul era mais azul e o verde competia com todas as cores do arco íris, emitidas por milhões de flores de que Pedro nem sabia o nome. Uma pequena casa alugada por uma soma ridícula serviu de abrigo a esse sonho, tornado real.
O inicio foi embriagante. Pedro e Vadel davam longos passeios numa vertigem de descoberta. Chegado à casinha, Pedro pintava furiosamente e escrevia longas cartas a amigos distantes, num relato incompleto da maravilha vivida. Alguns amigos e familiares visitavam-no por curtos períodos, pois a cidade reclamava as suas vidas no seu dia a dia alienante. João, cujo interesse pela botânica crescia com a idade, também vinha. Nessas alturas a felicidade de Pedro atingia o auge, gozando os passeios  a três, certo de que uma sintonia crescente os unia. Vadel revelou-se um cão de caça, talvez fruto de uma vida com o primeiro dono. Muitos coelhos, abundantes no local, foram por ele apanhados.
Os quadros de Pedro, quando não os escondia, envergonhado pela sua incapacidade de retratar tanta beleza, eram oferecidos aos amigos mais próximos que, indulgentemente, os aplaudiam. Sem assinatura, claro.
Pedro envelhecia, tranquilo, lamentando apenas não poder partilhar essa vida que sempre desejara.
João, já homem, e numa das suas visitas, disse ao pai que estava a estudar uma planta rara no mundo, mas relativamente abundante naquela região. Dela extraia-se uma molécula que podia curar muitas doenças. Pedro, embora secretamente achasse que quanto mais doenças se curavam e mais tarde os homens morriam, cheios de saúde, pior era, acolheu com entusiasmo e orgulho essa notícia. João pedia a colaboração do pai e do Vadel para tal estudo. O cão, treinado para o efeito, poderia ser um auxiliar precioso na descoberta da tão valiosa planta. Pedro concordou de imediato.
No inicio Pedro acompanhava os dois descobridores até à exaustão. Mas ele já não era jovem e os muitos anos sentado a uma secretária, ao serviço da cidade, não o tinham preparado para tão dura tarefa. Ficava a vê-los partir de manhã e recebia-os ao cair da noite, com orgulho e alegria pelos sucessos obtidos e um inconfessável ciume pelo brilho que ambos traziam nos olhos. Aquele brilho que só a descoberta dá.
Pintava depois telas retratando os dois companheiros, que acabavam, invariavelmente, escondidas debaixo da cama. Tratava do Vadel, lavando-o, alimentando-o e curando as feridas que o mato agreste lhe infligia. A vida corria como sempre sonhara possível.
Nos anos em que o estudo correu, as Primaveras eram vividas intensamente. Depois Pedro e Vadel ficavam sós, voltando ao ritmo calmo dos passeios usuais mas, para Vadel, faltava o entusiasmo da corrida, nariz no chão procurando a planta tesouro, dando assim uso às  características genéticas apuradas ao longo de gerações.
Um dia, João partiu de vez. Outras descobertas o aguardavam num local remoto. Orgulhoso mas triste, Pedro aceitou o que já sabia ser inevitável. Mas Vadel tinha mudado. A relação com João tinha sido mais forte e a vertigem da descoberta faltava-lhe. Frequentemente desaparecia durante horas, regressando com as mesmas feridas, testemunhas por onde tinha andado. Em casa, deitava-se, focinho apoiado no chão, olhos na porta, esperando pelo regresso de seu companheiro de aventuras. Numa dessas ausências, que começaram a ser cada vez mais longas, noites passadas fora, Vadel não voltou. Pedro procurou-o durante dias em locais mais e mais distantes, sem êxito. Alertou os vizinhos mais próximos  com quem tinha feito novas amizades, mas ninguém tinha visto Vadel.
Pedro ficou mortificado sem saber o destino do seu cão, companheiro e cúmplice dos melhores momentos da  vida recente. A única ideia que lhe dava ânimo era a possibilidade de Vadel ter  encontrado um novo dono, talvez um caçador, que o fizesse voltar à  actividade perdida.
Passava horas olhando os quadros, que jaziam debaixo da cama, com as pobres reproduções dos momentos gloriosos vividos a três. Deixara de pintar. As cores de outrora pareciam-lhe menos vibrantes.
Olhava o mesmo azul do céu que cobria a planície verdejante mas tudo lhe parecia acinzentado, incapaz de ser pintado de novo. As cores da sua paleta pareciam-lhe todas iguais. Pedro perdia, gradualmente, a visão da cor. Passara a ver tudo a preto e branco.