Triste (Anatomia de uma paixão)



Hoje dormi triste, o pouco que dormi. O resto do tempo, acordado e triste, pensei em ti. Não só em ti, mas em tudo que de ti vem e vai. Pensei em ti aqui, por todo o lado, que a tua imagem por todo lado está, mesmo nos sítios onde aquela foto não revelada também está, que é no meu álbum de memórias que comigo levarei um dia. Estava no escuro e imaginei-te no escuro também, talvez acordada, também, a pensar no que tu pensas quando acordas na escuridão do teu quarto, que não é teu, pois o teu é aqui. Talvez esteja aí a razão porque estou triste. Talvez eu sinta a tua tristeza, irmã ou mãe da minha, ou talvez seja só imaginação ou apenas o acordar dum mau sonho, que felizmente não recordo ao acordar. Acendo a luz. O teu rosto, pintado a jacto de tinta, olha-me. O teu sorriso acolhe-me. Penso que a minha tristeza vem de dentro, mas rolo na cama e penso que o teu lugar vazio, apesar de estar cheio de mim, me basta como razão. Decido fazer aquilo que sempre faço, quando estou triste. Ligo esta eléctrica memória, onde tudo de nós está escrito, onde as nossas imagens se unem num abraço que devia durar para sempre e, como sempre, leio os pedaços de alma que por lá têm ficado, resultado deste vai e vem, trocas de amor e prosa que, sorrateiramente, se transforma em poesia. Como um jardineiro que olha com orgulho o seu trabalho, colho uma ou duas rosas desse jardim de ternura e paixão. Uma branca, que brancas são as noites que aqui dormes e outra vermelho vivo, que o desejo tantas vezes saciado, pintou. Deponho as rosas no teu lugar vazio, que era o meu mas do qual eu fugi para onde o teu perfume ainda fala de ti e, de novo na escuridão, rosas na mão, espero pacientemente que voltes, como prometeste voltar, em sonho ou, como o desejo pede, em corpo e alma, pois só assim a minha tristeza acalma.

17/3/2011